Leonardo Vaz: A Open Source Development Labs é uma organização fundada em 2000, com
a finalidade tornar mais rápido o desenvolvimento de Software Livre, mais
específicamente o Linux. A OSDL é patrocinada por um consórcio de empresas
(IBM, HP, CA, Intel, entre outras) que emprega desenvolvedores do Kernel
Linux como Linus Torvalds e Andrew Morton para que eles se dediquem em
tempo integral ao desenvolvimento do sistema.
Thaise: Como surgiu a idéia?
Vaz: Antigamente, Linus Torvalds e a maioria dos desenvolvedores do Kernel que
atualmente fazem parte OSDL, costumavam trabalhar em outras empresas
nas quais realizavam outras atividades e colaboravam no projeto quando
tinham algum tempo livre. Lembro que eram raros os casos de Kernel
Hackers patrocinados para trabalharem em tempo integral no Kernel. Por
isso o ritmo de desenvolvimento do Kernel era mais lento e obviamente a
quantidade de atualizações costumava demorar.
Com o passar do tempo, o interesse de empresas em tornar o Linux não
apenas uma alternativa, mas principalmente um grande player do mercado
corporativo, começou a crescer e esse fator colaborou para a fundação da
OSDL.
Thaise: Existe pesquisa no Brasil para o desenvolvimento do Software Livre?
Vaz: Existe, apesar de ser muito pouco. A cada ano que passa os investimentos
em pesquisa e educação que são poucos diminuem ainda mais, e por incrivel
que pareça quem colabora mais nesta área não são as Universidades, mas
sim empresas que desenvolvem soluções baseadas em Software Livre, mas
obviamente tendo como foco o mercado corporativo. Apesar do Brasil ser um
dos países com a maior quantidade de usuários de Software Livre, são muito
poucas as pessoas que colaboram efetivamente.
Thaise: Como o governo investe nisso?
Vaz: Muito menos do que realmente deveria, visto que eles além de fazerem uso
do Software Livre, ainda o utilizam como ferramenta política. Já fazem alguns
anos que o Software Livre alcançou a esfera governamental. Inicialmente a
bandeira erguida pelo Governo Petista, em ocasião de sua gestão no estado
do Rio Grande do Sul, e posteriormente a causa foi abraçada pelo Governo
Federal. Infelizmente as coisas seguiram o caminho errado e algumas pessoas
perceberam que poderiam se beneficiar do Software Livre bem mais do que
deveriam e começaram a usá-lo como ferramenta política e o pior, fazendo
com que sua imagem ficasse vinculada à um partido, algo que não é bom,
num país onde tudo muda a cada quatro anos.
Hoje em dia se ouve falar muito sobre Software Livre no Governo. Volta e meia
são anunciados gigantescos planos de migração de Ministérios e Órgãos Públicos
Federais, mas na realidade se fez muito pouco em todo esse tempo. O que eles
sabem fazer mesmo são eventos. Muitos. Se você já teve a oportunidade de ir
à um grande evento de Software Livre no Brasil, certamente deve ter visto
gente do Governo Federal em grandes e pomposos stands expondo alguns
computadores com sua própria distribuição Linux, que muitas vezes é um LiveCD
qualquer com papéis de parede e ícones personalizados. Para quem está de
fora parece mesmo que eles estão fazendo algo. Nestes mesmos eventos você
ainda encontra gente que conheceu Software Livre na semana passada e fala
do assunto com tanta propriedade que até parece que entende. O discurso é
quase sempre o mesmo: o Software Livre veio para acabar com todos os
problemas da humanidade. A maior parte deles acredita piamente que o
Software Livre é um movimento anárquico e que eles irão acabar com a
Microsoft. No fundo sabemos que isso não é verdade. O fato é que tem se
perdido muito tempo discutindo assuntos filosóficos, que não tem tanta
importância assim e não tem se feito nada de concreto.
Thaise:Não teria como o Estado de incentivar nesse projeto?
Vaz:O estado poderia ajudar de diversas formas. Investimentos em pesquisa
por exemplo. Obviamente que dentre todos problemas sociais enfrentados
em nosso país (fome, desemprego, saúde, mensalão) certamente questões
como Educação e Desenvolvimento Tecnológico não devam ser prioridades.
Dessa forma restaria apenas incentivo fiscal à empresas que desenvolvem
este tipo de tecnologia, pois boa parte destas emprega muitos membros da
comunidade que colaboram o projeto.
Thaise: Quem são os beneficiados desse serviço?
Vaz: Todos de forma geral. A maior parte das pessoas utiliza Software Livre
e não sabe. Além do mercado de Servidores e Desktop, existe uma
utilização massiva de Software Livre em celulares, PDAs e outros tipos
de dispositivos embarcados.
Thaise: Por que a Microsoft está tentando enfraquecer o software livre?
Vi esses tempos nas buscas especiais do Google (Google Linux), tinha
nos links patrocinados um artigo da Microsoft falando que seu sistema
era mais seguro, tinha mais garantias ....
Vaz:Na minha opinião pelo crescimento do Linux e pelo interesse de grandes
empresas por ele. Se você analizar o mercado, verá que o público alvo
da Microsoft não é o usuário final que utiliza o Sistema Operacional deles
no Desktop, mas sim empresas e especialmente as de grande porte.
Apesar de todos mecanismos criados por eles evitar a pirataria, boa parte
dos usuários domésticos usa software não licenciado em suas máquinas.
Quem compra máquinas de grandes fabricantes acaba pagando por uma
versão que acompanha o hardware de fábrica, porém vale a pena lembrar
que a maior parte de máquinas comercializadas no mundo é através de
comércio informal, e que estas a grande maioria desta (para não dizer
todas) não vem com Sistema Operacional licenciado.
A pirataria é um problema muito grande para eles, mas ainda assim não
seria economicamente viável para a Microsoft sair por aí batendo de porta
em porta, verificando o sistema operacional que as pessoas estão utilizando,
e processando todos aqueles que não pagam por seus produtos. Para isso
eles precisariam ter mais Advogados do que Programadores, e mesmo
assim não iriam conseguir retorno financeiro com isso pois grande parte
das pessoas que eles iriam processar não iriam ter como pagá-los mesmo.
No caso de empresas, a situação é diferente pois eles propõe condições
de pagamentos e descontos especiais para o licenciamento, ou em último caso
processam-as. Dependendo do tamanho da empresa e do custo do processo,
isso pode acabar resultando em falência.
Por ter custo muito menor que soluções proprietárias, o Linux se tornou uma
solução bastante atraente para empresas e por isso acabou invadindo o
mercado da Microsoft. Acho natural que eles estejam fazendo esse tipo
de campanha, mas sinceramente não acredito se eles terão êxito.
Thaise:Ainda existe muitos produtores de softwares e periféricos com rabo
preso à Microsoft?
Sim, e isso é normal. Grande parte dos fabricantes desenvolvem dispositivos
compatíveis com Windows por que este é o Sistema Operacional mais utilizado
no mercado. O problema não reside na incompatibilidade do Hardware, mas sim
na negligência do fabricante em não disponibilizar device drivers que
permitam seus dispositivos a funcionarem no Linux. Mesmo assim, muita gente
ainda escreve drivers para que estes dispositivos seja suportados pelo Linux,
e disponibilizam livremente.
Com relação à software, acredito que as empresas que desenvolvem aplicações
apenas para a plataforma Windows não tenham visão de mercado. Com alguns
ajustes boa parte dos programas poderia rodar em Linux e as chances de
crescimento da carta de clientes e obviamente das vendas poderiam crescer.
Várias empresas fizeram isso e estão se dando bem. Veja o caso da Oracle. :)
Thaise: O software livre ainda é visto como um sistema acadêmico e difícil
de ser usado? Os usuários colaboram para a desmistificação dese conceito?
Vaz:O que costumava ser algo complicado até alguns anos atrás, já não é mais.
Graças ao trabalho de muitas pessoas a cada dia que passa o Linux tem se
tornado mais simples de usar. Antigamente existiam mitos de que Linux era
difícil de instalar, que não existia uma boa interface gráfica e que não
existiam programas básicos como um bom Browser, Editor de Textos, Planília
etc... Hoje em dia, pra começar você não precisa mais instalar o Linux se
não quiser. Você pode rodá-lo apartir de um LiveCD, acessar a Web com o
Firefox, criar textos, planílias e apresentações no OpenOffice e assim
por diante em ambientes gráficos requintados completamente intuitívos como
o KDE ou o GNOME. Na minha opinião o que realmente falta hoje em dia é
apenas divulgação. :)